quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

Intermitente - por T R Bremm


A lâmpada está piscando,
ele não consegue parar de olhar
e a lâmpada pisca,
repicando seu ruído.
A luz amarela gasosa lambe a lente de seus óculos
e por trás da expressão tensa, sua mente pisca como a lâmpada
Está frio.
Uma rua de casas com quintais engolidos pela noite
e tudo está deserto.
Um ou outro carro passa rolando, como se fosse um sonâmbulo,
mas nenhum é o que ele espera.
E a lâmpada continua a piscar,
de certa forma dando conforto.
Ele fica no centro do círculo de luz intermitente,
esperando.
Um gato passa ligeiro
e seus olhos refletem por um instante a luz do poste.
Ele salta esquivando do carro que para devagar frente ao homem.
O vidro baixa,
a lâmpada ainda pisca,
revelando mãos com dedos que batucam levemente no volante,
estirando sombras sobre um rosto encovado que mantém o olhar à frente.
A porta abre,
o homem entra,
a lâmpada para de piscar,
e o carro vai embora.
O ar dentro do veículo é tão abafado,
as janelas suadas,
e a locutora falando de uma promoção no rádio,
E o rádio pisca,
suas pequenas luzes coloridas se apagam e voltam a suspirar, junto da música que gagueja
Eles vão querer uma resposta que ele não sabe dar.
O homem ao volante faz um gesto com o polegar indicando o próprio cinto,
o passageiro titubeia confuso,
então se revira em seu banco procurando pelo cinto.
O fecho metálico encaixa
e o rádio pisca,
a música espasma.
- Quando será?
Diz o passageiro depois de conseguir tomar três goles de ar.
O motorista une as mãos ao volante, e com um indicador comprido batuca sobre o vidro do relógio.
- Eu disse que não conseguiria tão cedo...
Suspira o passageiro olhando para os próprios pés.
E o motorista dá de ombros
e o rádio pisca
e a radialista quica com sua voz sumindo e voltando:
"esqueceu... noite... nunca... outra vez!"
O carro para em uma sinaleira e o passageiro espia além da janela,
vê um casal que discute no carro ao lado.
A mulher cruza os braços e ignora ativamente o homem que gesticula em sua direção.
Ela aponta para o semáforo aberto
e os veículos já voltam a se mover.
O motorista aponta ligeiramente para o porta luvas
e manobra uma curva fechada para entrar em uma estrada estreita.
Em meio aos solavancos o passageiro abre a pequena porta
e vários sachês de açúcar cristal, mascavo, sal iodado, palitos de dente individuais chovem.
Em meio aos confetes de condimentos
um relógio,
este não de pulso,
um daquele relógios de prata,
os de bolso,
com corrente.
Tão pesado,
sua massa tão real,
o tipo de objeto que faz o mundo parecer mais sólido e acreditável.
O homem segura em sua mão fria
e olha para o vidro que já vai se tornando um olhar de catarata.
Ao fundo de sua parca transparência,
os ponteiros negros de curvas femininas repousam em seu próprio tempo.
E a música no rádio treme
e as luzes piscam
e um dos ponteiros mexe,
avança,
volta em dobro e,
como que superando o medo,
torna a avançar.
E na sua irregularidade livre,
o tempo caminha.
Sem poder parar as gotas de suor da testa do passageiro que parece esquecer de respirar.
O carro se afasta das luzes da cidade
e o rádio perde a sintonia.
Agora apenas a estática chia,
e o silêncio dança uma valsa sem ritmo.
O veículo para em frente a um portão.
Pela primeira vez,
o pescoço do motorista retesa seus músculos lentamente fazendo a cabeça ossuda girar.
Seus olhos castanhos tão pesados,
num rosto tão leve que nem parece saber o que é cansaço.
O motor não é desligado.
Um botão e as portas são destrancadas.
- Não devia ser hoje... não era pra ser hoje...
Suspira o passageiro cujo olhar tenta escapar dos dois poços no rosto do motorista.
Uma respiração profunda,
e as mãos focam seus dedos trêmulos no objeto prateado.
Pinçando entre o indicador e o polegar, o homem gira o botão na lateral do relógio.
O ponteiro das horas começa a arranhar o fundo,
e o rádio chia, e tosse, e chia
e as luzes piscam,
e o ponteiro dos segundos continua seu avanço bêbado.
Ele termina de ajustar as horas,
para quase meia noite,
lança um último olhar de súplica ao motorista inerte como uma estátua.
Uma mão lenta abre a porta,
e o rosto corado do passageiro trepida ao se chocar com o ar gelado.
- Eu serei lembrado?
Com uma perna fora do carro ele pergunta olhando sobre o ombro,
o rosto do motorista, que já olhava à frente novamente,
apenas acenou devagar um "não".
Em pé,
fora do veículo,
a porta fecha,
as pequenas luzes acendem,
e a música toca.
O homem cabisbaixo prossegue,
segurando o relógio em uma mão,
empurra um portão enferrujado com a outra
e some na escuridão.
O motorista engata a ré e se afasta devagar.
Parte para buscar outro último passageiro,
enquanto a noite ainda apaga luzes.