segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

Cavalo Morto -T R Bremm

O coração ruge no peito tal os cascos tamborilando o chão
Os olhos baços do animal dardejam o horizonte
Ele cavalga e cavalga, o açoite em meio a gritos
O tempo os persegue como uma flecha
Cavalga e cavalga, desce vale, sobe colina
Os músculos tremem, os pulmões ardem
A vida escapa jorrando pelas narinas do cavalo
Possuído pelo galope, a energia o ferve, saliva esvoaça
O homem esmaga as rédeas, cavalga e cavalga
Tentam superar o destino, a poeira esconde o que sobrou
Pulsando e pulsando, saltos de quatro patas, um coração que morre
Um relincho, meneios da longa cabeça, o espírito vai além do corpo que se entrega
A carcaça quente enfrenta o chão, o estrondo molhado, metal tilintando
De rosto para o céu ele ouve o vento, sente a derradeira expiração do animal
No alto as nuvens voam, o deixam pra trás
Seu peito se ergue pesado, o corpo convalescido se apóia na ruína do vigor que resta
Passo, passo, cada um mais ansioso, solta fivelas, metal ao chão
Peça por peça, descarna o homem de lata, expõe sua pele suada
Ele corre, a dor lhe arranca gemidos, o vento lambe o suor e assedia sua boca
Escapa do peito a alma que se avança, vívida ainda em esperança
Espada na mão, bainha descartada, ele não chegará, ele não chegará
Está morto e não sabe, não poderá salvá-la
O horizonte de sua consciência retrocede à medida que seu passo avança
Sem fim para um fim não justo, persegue o descanso negado, o remorso ratificado
Não vai, não pode, ninguém a salvará
Ele não chegará, pernas se convencem, músculos se rendem
Da sinfonia de ruídos, o surdo findar é o choque, joelhos contra a terra
A mão trêmula estendida, a espada apoiada empalando sua sombra retorcida
Os olhos lívidos cheios do que resta, emoções evacuadas tateando a borda do mundo
Ele não pôde salvá-la, está morto e não sabe
O passado que o perseguiu agora ancora sua alma
Fecha as pálpebras, resignado, o mundo é só um sonho, ou é ele algo sonhado
Ele não pôde, não conseguiu salvá-la
Está morto e nem sabe, que um dia fitou a aurora
Agora no crepúsculo rubro da última luz que lampeja em seus olhos
Aprendeu que a última noite vem sem horas
Como uma pedra que parou de rolar, seu corpo debruça
Resta a espada em pé, uma lembrança enferrujada
Um dia ele não pode salvá-la
Esteve vivo e não sabe
Num lugar sem sons, cavalga e cavalga

Mas o tempo já o deixou pra trás...