segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

Homens de Papel I


     Numa caverna no coração de uma floresta congelada havia uma civilização muito antiga e abandonada. Homens que construíram toda uma vida dentro de um buraco de solidão onde se protegeriam do frio eterno daquela região.
     Seus pés o solo não poderiam encostar, pois muitos por distração perderam mais do que um dedão. Sua pele exposta não poderia estar ou a umidade iria lhe devorar. Então pele de animais mortos e madeiras secas foram adaptadas para que propícia ficasse sua morada. Eram homens muito frágeis, eram homens muito corajosos. Eram homens de papel.
     -Você acha que há mais de nós por ai? -Perguntou Rabisco.
     -Novamente com esses pensamentos delirantes? Claro que não. -O tom de Amassado foi ríspido. -O grande Origami nos disse que somos únicos e jamais deveríamos duvidar. Aqueles que passaram pelas portas daquelas cavernas a morte com certeza irá encontrar.
     -Mas Amassado, e se a vida for mais do que o medo? E onde fica os nossos desejos?
     -Está querendo arrumar encrenca, Rabisco? Vamos! Chega de conversa mole e vamos voltar ao serviço.
     -Está bem, bem... bem?
     -O que foi agora?
     -Não compreendo porque nossos mortos devemos na temível água molhar. Trabalho ingrato esse que você foi me arranjar. As pessoas mal olham para nossos rostos, como se fossemos da própria morte mero esboços.
     -Está andando muito com Rasgado. E mais te falo! Esse delirante é dos piores casos. Um caso não solucionado. Um pobre coitado. Afasta-te dele enquanto puder ou se bom senso tiver.
     Rabisco ficou pensativo. O pobre Rasgado era um velho e seu amigo. Suas palavras despertavam um dinamismo em sua vida que até então era dividida entre trabalho e pagar suas dívidas. A sociedade dos homens de papel era cara e ingrata. Enquanto a nata vivia em seus castelos, sãos e salvos, os plebeus viviam em caixotes improvisados, úmidos e mofados.
      -Tem que ter algo mais. Se eu for corajoso, saberei do que sou capaz?