quarta-feira, 8 de outubro de 2014

Meu corpo é uma prisão


     Algumas luzes iluminavam aquelas ruas que eu percorria. Meus passos eram vagarosos naquela época. Não tinha muita vontade de voltar para casa, mas não tinha para onde ir. Meu corpo parecia pesar cinco vezes mais pelo meu cansaço físico e mental.
     As risadas das pessoas me distraiam. Pela conversa planejavam ir para alguma festa e me dou conta que já era sexta-feira. Mais uma semana estava se acabando, como as outras anteriores. Nada demais havia ocorrido nela.
     Olho para minha esquerda, onde ouvi uma música e vejo que se trata de uma escola de dança, daquelas que deixam uma janela enorme em direção a rua para que os pedestres vejam. Lembrei de quando era uma criança e de como gostava de dançar.
     Hoje em dia eu tenho vergonha. Nem sei se saberia dançar, mas me sinto tão desengonçado com o corpo que tenho hoje que não vale a pena pensar.
     Lembrei que também participei certa vez de um teatro da escola. Era um teatro de fantoche e eu era o jacaré. Impressionei tanto a professora que ela me promoveu para ser o principal da peça. Era o leão. Se não me engano isso foi na terceira série.
     “Eu seria um ótimo ator.” Pensei por um segundo e tão rapidamente descartei tal ideia. Não tinha beleza de ator e já não tenho mais idade para isso. Não tenho 30 anos, mas já passei dos 20. Dizem que para começar essas coisas tem que ser jovem.
     Será que ainda sou jovem?
     Me sinto tão velho às vezes. Pago as minhas contas, terminei de estudar há 2 anos e ainda não me sinto a vontade socialmente. Não lembro da última vez que fiz algo que me orgulhasse. Ou se fiz algo porque assim desejava.
     Aos 16 anos eu desejei comprar uma guitarra. Meus pais não deixaram, pois disseram que era muito barulhenta. Será que agora eu poderia comprar uma? Mas meus vizinhos reclamariam, não?
     Se bem que hoje tem fones que permitem que só eu ouça o som da guitarra ao conectar nela, pelo menos foi o que eu ouvi de um colega há um tempo atrás.
     Mas para que eu iria aprender agora também? Do que me adiantaria?
     Disseram que não podemos perder tempo. Tenho que gastar o meu com algo útil.
     Suspiro com essa palavra: útil.
     Começou a chover e eu começo a apressar os passos para me proteger numa cobertura de alguma loja que já fechou. Enquanto aguardo a chuva passar eu me lembro de quando tinha 10 anos e no natal teve uma chuva parecia com essa. Estava com meu irmão mais velho indo para a casa de nossa avó a tarde.
     Não nos intimidamos por ela. Pelo contrário. Corremos procurando poças de água para pular e chutar água um no outro. Rimos muito naquela tarde e chegamos ensopados na vovó.
     “Queria pular em uma dessas poças para ver se ainda sentiria o que senti naquele dia.” Penso, mas sou adulto agora. Me olhariam estranho e eu ficaria com vergonha. Mais do que já estou.
     Às vezes eu queria ter outro corpo.
     Para poder ter a coragem de fazer aquilo que outros achariam ridículo se me vissem fazendo. Para ser mais aceito pelas pessoas e por mim mesmo.
     Às vezes eu queria ter nascido em outra época.
     Restringiram tanto a minha liberdade quando criança e adolescente. Agora que sou adulto eles me abandonaram para enfrentar o mundo sozinho. E eu ainda nem sei quem sou.
     Às vezes eu queria ser criança.
     Fingir que não tenho vergonha e fazer essas coisas. Criança não sabe o que é isso, ou pelo menos finge que não sabe. Tenho medo de fingir que não sei o que é vergonha e começar a fazer essas coisas e parar num sanatório.
     Às vezes sinto que meu corpo é uma prisão.
     Queria ver algo pela primeira vez. Sentir algo pela primeira vez. E não que tudo já foi visto ou sentido. Só queria sentir o esplendor novamente. Ter o deslumbramento do mundo através dos olhos de uma criança, de alguém que sabe quem é.
     Eu só queria ser...