quarta-feira, 15 de outubro de 2014

A planta eleitoral



     -...e ele ficou se contradizendo o tempo todo! Detesto pessoas assim!
     Dois homens estavam sentados numa mesa em uma cafeteria no centro de uma cidade muito quente. Tomavam café e comiam pão de queijo no intervalo do trabalho deles.
     -Uhum. -Disse o outro enquanto tomava mais um gole do seu café.
     -E aquele político então? No primeiro turno tinha uma opinião que ia totalmente contra a do outro candidato que agora ele apoia no segundo turno. São todos uns corruptos mesmo. Sem palavras.
     O outro mexia no celular lendo alguma coisa enquanto o colega continuava a desabafar suas frustrações.
     -E aquela escritora que eu tanto gostava, lembra? Aquela estrangeira que escrevia histórias sobre motivação. O último livro foi um drama terrível em que não havia uma solução. Como pode ser tão hipócrita? Escrever sobre o que não sente? Afinal, quem ela pensa que somos?
     -Uhum.
     -O que você acha disso Jorge?
     O outro apenas ajeitou seus óculos e ainda pensava porque aquela conversa teve esse rumo.
     -Acho que seu café esfriou.
     -Ah, vamos. Fale algo. Eu sei que também concorda comigo, mas quero ouvir sua opinião.
     -Quer mesmo?
     -Claro! Perguntei, não foi?
     -Bom, então por onde devo começar? Acho que você tem muita opinião sobre as coisas e poucos argumentos, Juvenal.
     O homem que estava dando seus primeiros goles no café engasgou um pouco.
     -O que quer dizer com isso?
     -Quero dizer que você crítica o político, mas não deve ter lido suas propostas de cabo a rabo para julgar se eram tão diferente assim do outro candidato e nem os motivos reais de tê-lo apoiado. Alias, se as pessoas fizessem isso talvez elas notassem que o nosso problema vai muito mais além da corrupção.
     -Mas eu li aquela matéria que estava naquela rede social que comprovava que o candidato do segundo turno fez tudo aquilo.
     -Claro e eu posso agora mesmo criar um bom texto dando 10 motivos para elegermos uma planta como próximo presidente, se isso fosse possível no Brasil, e não demoraria para alguém criar uma página falando sobre isso e defendendo o meu ponto de vista, assim como algumas pessoas dariam razão e tentariam falar por mim, dizendo que estou fazendo uma crítica ao sistema capitalista, socialista... E qualquer sistema que os desagrade. Mas eu apenas queria fazer um texto engraçado no final das contas. O que nos leva a questão da escritora.
     O outro ia dizer algo, mas Jorge pediu novamente a palavra.
     -Um escritor pode escrever o que sente, mas para que se limitar? Porque não observar o cotidiano e absorver a essência dele? E quem disse que ele não sentiu tudo aquilo quando escreveu? Podemos imaginar diversas situações em nossa mente e nosso coração pode sentir cada uma delas. Sofremos por coisas que não existem, alguns pensadores já diziam isso. Ficamos doentes por problemas que não são tão irremediáveis assim. O que se espera de um escritor se não conseguir traduzir tudo aquilo que muitos não conseguem dizer com palavras?
     -Mas isso tudo é hipocrisia!
     -Hipócrita é aquele que só por não conseguir sentir tudo isso diz para si mesmo que ninguém mais é capaz de tal feito. É querer colocar sua verdade como absoluta e sobrepujar as verdades das outras pessoas.
     -Está me chamando de hipócrita então?
     -Essa é a sua interpretação das minhas palavras. Assim como as demais opiniões que você teve. Já disse e torno a repetir, você tem muita opinião, mas peca em argumentos.
     -Sou livre para pensar o que quiser e não preciso de argumentos que o agrade.
     Jorge terminou de tomar o café e pediu a conta, tirando o dinheiro da carteira.
     -E é livre para pedir a opinião dos outros, como pediu a minha. É livre também para interpretar o que quiser. Mas se pedir a opinião de alguém tem que estar preparado para ouvir qualquer coisa. Bem, acho que temos que voltar ao trabalho. Tenho uma matéria que envolve uma planta concorrendo uma eleição para escrever.