sábado, 27 de setembro de 2014

Ell


     -O que é a realidade na sua opinião? - Ele perguntou.
     -É um punhado de ideias misturada a um sentimento. -Ela sorriu ao ver a expressão incrédula dele. Ela então se abaixou e delicadamente pegou um punhado de pó do chão e se levantou. -Pense assim. O que é isso?
     Mark ficou observando e pensou numa resposta intelectual para surpreender a garota, mas nada lhe veio a cabeça.
     -É apenas um punhado de pó. O que mais seria?
     -Seria apenas o que você quisesse. Olhe e diga o que sente ao vê-lo.
     -É apenas um punhado de sujeira e bactérias.
     -E o que mais? -Insistiu a garota.
     -É escuro, frágil... Está em todo lugar.
     A garota riu por um momento e Mark ficou ofendido com a atitude da moça.
     -O que é isso então?
     -Isso é um punhado de pó. Essa foi a ideia que você definiu. Você e o pensamento coletivo. O pó é o resto, mas esse resto foi algo um dia. O que esse punhado de pó foi um dia? Não importa. Pelo menos agora, vamos pensar no futuro. O que ele será depois do pó? Dizem que para algo ser criado, outra coisa tem que ser destruída. Então a pergunta a se fazer neste momento seria o que isso será? Você tem ideia?
     A serenidade e sabedoria da garota excêntrica deixou Mark sem palavras. Eles estavam sozinhos naquele parque. O vento então começou a ficar mais forte. Ele abaixou a cabeça e respondeu:
     -Qualquer coisa. Isso pode ser qualquer coisa...
     -Então não temos mais apenas um punhado de pó, mas em minhas mãos eu seguro qualquer coisa.
     Mark evitou olhar nos olhos da moça. Aqueles olhos avermelhados deixavam o jovem perturbado. Ela então abriu a mão e deixou que o vento levasse o pó de sua mão.
     -Mark, você sabe algumas pessoas se matam? -O rapaz arregalou os olhos. Não esperava por uma pergunta dessas. Ele negou com a cabeça. -Elas se matam quando percebem que não existem mais.
     A garota sorriu novamente, mas um sorriso bucólico. Mark sentiu-se incomodado por esse sorriso. Teve vontade de vê-la alegre novamente, mas a garota continuou a falar.
     -Nós também somos ideias. Mas também somos sentimentos. Precisamos um do outro. Eu poderia ser apenas mais uma pessoa que cruzou seu caminho e você jamais saberia da minha existência. Para você eu jamais teria existido, pois a ideia estaria ali, mas não o sentimento. Entende?
     Ele fez um sinal negativo com a cabeça e ela continuou.
     -Deixa eu colocar de outra maneira. Tem pessoas que percebem que são apenas ideias. Ideias vazias, sem sentimento. Quando você percebe que o mundo é só de ideias e não lhe transmite mais nenhum sentimento você compreende então que aquilo não é mais real. Você não consegue mais torná-lo real, pois o sentimento que lhe conectava e dava sentido as coisas a sua volta se extinguiu e você acaba de perder a si mesmo. Muitos preferem então matar a ideia já que o sentimento não existe. Alguns irão chorar, outros sofreram a ausência daquela pessoa por algum tempo, mas logo apenas a ideia existirá e o sentimento da saudade desaparecerá. Depois de alguns anos a ideia também evanescerá e a menos que você produza algo que marque o sentimento coletivo, ninguém se lembrará de você. Do seu corpo, das suas conquistas apenas se reduzirão ao pó, ou como você mesmo descreveu a pouco, um punhado de sujeira e bactérias.
     A garota ficou com todo o semblante melancólico. Mark queria tocá-la, mas não sentia-se confiante.   Ela era linda mesmo sendo tão diferente. O cabelo roxo preso num laço negro de veludo e seus olhos vermelhos fascinavam e chocavam Mark ao mesmo tempo. O vestido vitoriano negro e o rosto de boneca da garota contrastava com as mulheres de Londres.
     -Mark, por que você está falando comigo?
     -Como assim?
     -Eu estive parada naquela praça por muito tempo. As pessoas passavam reto por mim, umas fingiram que eu não estava lá, outras me olharam com reprovação, mas logo em seguida continuaram seus caminhos. Já as crianças sorriam para mim. Umas até tentavam chegar perto, mas seus pais os afastaram com medo. Eu uso uma roupa de um tempo que não existe mais, meu cabelo e meus olhos não são da sua natureza. Que sentimento eu despertei em você?
     Mark tentou lembrar do momento em que viu a garota.
     -Senti como se meus olhos finalmente pudessem distinguir as cores. Senti um contentamento, uma curiosidade e um desconforto quando te vi. Você me deixou impressionado e agora continua me impressionando. Quem é você?
     -O que eu sou para você? -Perguntou a garota olhando nos olhos de Mark. Ele sentia que ia afundar dentro daqueles olhos se não respondesse logo. Os olhos da garota possuíam um magnetismo que fazia com que o jovem sentisse cada parte do seu corpo viva.
     -Uma deusa.
     A garota riu de Mark. Ele ficou constrangido e abaixou a cabeça um pouco injuriado.
     -Quem é você afinal?
     -No momento eu sou uma deusa. -Sorriu a garota. Ela colocou seu braço no de Mark. - Vamos. Me mostre um pouco dessa Londres.
      E eles seguiram...