quinta-feira, 25 de setembro de 2014

Alma Oceânica


     Quem diria que um passeio de navio poderia virar um pesadelo? Com certeza Judy não. Até poucas horas estava assistindo um dos entretenimentos do cruzeiro com seus pais e sua irmã mais nova. Porém, com a virada do tempo, estava no meio de um naufrágio.
     “Estamos com problemas mecânicos”
     “Algo nos atingiu.”
     Eles diziam várias coisas, mas o fato era que todos corriam desesperados por todos os lados em busca de um lugar seguro, mas já não havia. A única opção era pegar um dos barcos e esperar que eles não virassem com o tamanho das ondas.
     O capitão havia dito a pouco que estavam próximos da Fossa das Marianas. Não que isso tivesse alguma relevância para ela naquele momento.
     Seus pais levavam ela e sua irmãzinha pelo braço para um dos barco salva-vidas e entraram às pressas. No entanto, quando foram descê-lo um dos lados desceu demais e muito rápido. Judy só teve tempo de ver sua irmã caindo e desaparecer na água. Sem pensar duas vezes ela se jogou no meio do caos das ondas e procurou pela irmã.
     O que ela viu ao mergulhar foram destroços indo para o fundo. Os relâmpagos davam a luminosidade esporádica que precisava. O silêncio trouxe uma paz e um relaxamento em seus pensamentos.
     A superfície turbulenta e os gritos das pessoas pareciam de outro mundo.
     Era exatamente essa sensação que teve. De que estava em outro domínio.
     De repente viu mais pra frente uma criança sendo arrastada pela correnteza para o fundo e nadou como pode até ela. Nunca pensara que teria forças nos braços como naquele momento. Na escola Judy jogava vôlei, mas não era muito fã de esportes. Com seus 16 anos ela era fã de um cantor britânico e tinha o sonho de ser modista, usando a irmã, Anna, como modelo.
     Essas lembranças davam essa força, quase sobrenatural, para a adolescente. Amava a irmã. Não poderia perdê-la assim.
     Com essa determinação ela acabou por alcançar Anna, que estava já inconsciente. Sentiu um alívio quando a irmã estava em seus braços. Começou a nadar para a superfície quando percebeu que se afundara demais e seu fôlego estava por um tris. A urgência que seu corpo asseava pelo ar quase fizeram Judy perder o controle e se desesperar, mas ela tinha algo precioso nos braços. Então a visão de seu pai nadando em sua direção lhe deu esperanças, mas logo a razão lhe caiu e soube que teria que fazer uma escolha, pois não teria forças para alcançá-lo. A correnteza puxava as duas para a direção oposta do pai.   
    Nadou com todas as suas forças para se aproximar do pai e quando pensou que não aguentaria mais ele segurou sua mão. Uma sensação triunfante se fez presente. Parecia que tudo daria certo.
    Ele tomou Anna em uma das mãos e Judy segurou como pode nele, enquanto sentia subir com os esforços do pai. Mas o pai foi ficando cansado. A mais nova desacordada estava dificultando que fossem muito adiante e aos poucos não estavam mais subindo e sim lutando para não descerem. Judy notou alguns corpos flutuando no meio dos destroços do navio. Tragédias não escolhiam idade, classe social e nem cor.
    O pai não era muito ágil e fazia anos que não nadava tanto. Sabia que era por elas que ele estava ali. Então tomou a decisão de sua vida. Escolheu salvar Anna.
     Ela se soltou do pai e o empurrou para cima. Ele não compreendeu o que ela estava fazendo, mas logo se deu conta tentou voltar para buscá-la. Judy fez um sinal negativo com a cabeça e por fim ele entendeu que não poderia salvar as duas. Sentiu-se partir em pedaços a cada braçada que dava em direção a superfície e longe de Judy. Já a adolescente sentiu-se feliz e abraçou o silêncio.


     “Será que eu verei um tubarão antes de morrer? Algum dia irão achar o meu corpo ou ele será devorado por algum animal? Queria que minha família soubesse que eu estou em paz com isso. Meu corpo está doendo, pois a água começa a invadir os meus pulmões, mas eu não me arrependo de nada. Quero que eles sejam felizes.”

     Passaram-se alguns minutos desde que ela entrara na água e agora nem os relâmpagos mais ela conseguia ver. A dor estava desaparecendo. A morte trazia consigo uma sabedoria anciã.

     “Quantas pessoas morreram no mundo neste mesmo mar? Será que suas almas ainda estão aqui? Será que o mar também as puxam consigo e não lhes dá a liberdade do espírito? Mas eu sinto uma tranquilidade fria se apoderar de mim e a vida está tão distante agora. Começo a ficar em dúvida se realmente algum dia eu existi. Se Anna, papai, mamãe e tantos outros realmente existiram ou se sou apenas a voz dos pensamentos de alguém, pois já não sinto mais o meu corpo. Já não lembro mais como era ter um. Nem a dor e nem medo. Só o silêncio.”